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Fim da escala 6×1: quais empresas da B3 sentem mais o peso da folha

Time Economatica · · 5 min de leitura

A jornada de trabalho no Brasil vai encolher. Promulgada em 16 de outubro, a Emenda Constitucional 141/2026 acaba com a escala 6×1 e reduz o limite semanal de 44 para 40 horas, sem corte de salário. Para as empresas, a conta é direta: as mesmas horas de operação vão custar mais.

Mas o impacto não será igual para todos. Para medir quem tem mais a perder, a Economatica analisou a Demonstração do Valor Adicionado (DVA) do primeiro semestre de 2026 de 44 companhias abertas de 18 setores. O resultado mostra uma distância grande entre os extremos: na GPS, a folha de pagamento equivale a 47,4% da receita; na PRIO, a 1,3%.

Neste estudo, você vai ver:

  • o ranking do peso da folha na receita das 44 empresas;
  • uma simulação de quanto a nova jornada pode tirar do lucro de cada uma;
  • os setores que passam ao largo e os que podem até ganhar com a mudança.

O que muda e a partir de quando

O texto aprovado pelo Congresso tem quatro pontos centrais:

  • Jornada: máximo de 8 horas por dia e 40 horas por semana.
  • Folgas: dois dias de descanso remunerado por semana, um preferencialmente aos domingos.
  • Salários: não podem ser reduzidos; pisos e convenções seguem valendo.
  • Exceções: escalas como a 12×36 continuam permitidas; a saúde terá regras próprias em lei complementar; profissionais com diploma superior e salário a partir de 2,5 vezes o teto do INSS (R$ 21.188) ficam fora do controle de jornada.

A transição é gradual. Em 16 de dezembro de 2026, passam a valer a escala 5×2 e o teto de 42 horas semanais. Em 16 de dezembro de 2027, o limite cai para 40 horas.

Do lado da indústria, a CNI estima um custo adicional de até R$ 267,2 bilhões para as empresas (Veja). O governo, por sua vez, fala em linhas de crédito e capacitação para os setores mais afetados (Estadão).

Serviços, educação e calçados no topo do ranking

O primeiro termômetro é simples: quanto da receita vai para salários, benefícios e FGTS. Na mediana das 44 empresas, a folha equivale a 11,3% da receita. Catorze companhias gastam 20% ou mais.

Fonte: Economatica, DVA consolidada 1T26 + 2T26 de 44 companhias da B3

A GPS lidera com folge: a empresa de limpeza, segurança e facilities gastou R$ 4,9 bilhões com pessoal no semestre, 47,4% da receita. Faz sentido: no negócio de terceirização, o serviço vendido é a própria mão de obra, e boa parte dela trabalha em escalas que terão de ser refeitas.

Na sequência aparecem três grupos:

  • Educação: Ânima (26,2%), Yduqs (25,7%) e Cogna (22,6%), com professores e equipes administrativas como principal custo.
  • Calçados: Grendene (27,9%), Vulcabras (27,6%) e Alpargatas (20,7%), indústria de linha de produção intensiva em pessoas.
  • Logística e varejo de moda: JSL (25,6%) e Azzas 2154 (20,1%).

Dois nomes do topo pedem cautela. Na Totvs (37,4%), boa parte da equipe é de profissionais de tecnologia que já trabalham em 5×2, e parte delas pode ganhar acima do corte da emenda. Na Rede D’Or (36,8%) e na Fleury (20,4%), a saúde terá regras próprias, e os plantões 12×36 seguem permitidos. Nesses casos, a folha pesa muito, mas a parcela atingida pela nova jornada tende a ser menor.

Quanto a nova jornada pode tirar do lucro

Para traduzir o peso da folha em resultado, a Economatica simulou um cenário-limite. Se cada hora a menos for reposta com contratações ou horas extras ao mesmo custo, a folha sobe 10% (44 ÷ 40). Descontados 34% de IR e CSLL, esse custo extra foi comparado ao lucro do primeiro semestre.

Nesse cenário, a conta superaria todo o lucro semestral da Azzas 2154 e consumiria 80% do da Yduqs e 64% do da GPS.

O caso mais extremo fica fora da tabela. Na MBRF (Marfrig/BRF), dona da terceira maior folha do levantamento (R$ 7,1 bilhões, atrás de Petrobras e Vale), o custo simulado de R$ 471 milhões supera em mais de 40 vezes o lucro de R$ 12 milhões do semestre. Já Magazine Luiza, GPA, Casas Bahia, MRV, Simpar, JSL e CVC tiveram prejuízo no período, e o custo extra ampliaria as perdas.

O mercado reagiu no dia seguinte à votação no Senado. Em 15 de outubro, JSL (-5,65%), Pague Menos (-5,06%), Grupo Mateus (-4,28%) e Vulcabras (-3,75%) registraram quedas fortes, enquanto a PRIO subiu 0,09%. O cenário eleitoral também pesou no pregão.

Quem passa ao largo e quem pode ganhar

Na outra ponta estão negócios intensivos em capital, em que máquinas, redes e imóveis pesam mais que pessoas: petróleo (PRIO, 1,3%; Petrobras, 6,3%), energia (Engie Brasil, 4,3%; Taesa, 5,0%), shoppings (Multiplan, 6,5%) e locação de veículos (Movida, 4,2%; Localiza, 5,7%). Nelas, o custo extra simulado fica abaixo de 5% do lucro do semestre, com exceção da Movida (8,6%).

O estudo não calcula ganhos, mas três grupos aparecem no debate como possíveis beneficiários:

  • Lazer e consumo no tempo livre. Com dois dias de folga, sobra mais tempo para academia, viagem e passeio. Smart Fit, CVC, Ambev e Multiplan estão nesse grupo. Smart Fit e CVC, porém, também têm folha pesada (16,0% e 31,9% da receita), e o saldo fica em aberto.
  • Gestão de jornada. Escalas mais complexas aumentam a demanda por software de ponto, RH e planejamento de turnos, mercado da Totvs.
  • Terceirização. Empresas que precisarem recompor horas podem contratar serviços de terceiros. A GPS pode ganhar demanda, mas é também a mais exposta do ranking; o efeito líquido depende de quanto do custo ela conseguir repassar aos contratos.

Como o estudo foi feito

Os números vêm da DVA consolidada que as companhias enviam à CVM na base da Economatica, somando o primeiro e o segundo trimestres de 2026. A linha “Pessoal” reúne salários, benefícios e FGTS. O lucro é a remuneração de capitais próprios da mesma demonstração.

A simulação é um teto, não uma projeção. Ela não desconta funcionários que já trabalham 40 horas ou em 12×36, nem considera ganhos de produtividade, automação ou repasse de preços. Assaí, Odontoprev e Itaú ficaram fora por falta de DVA consolidada na base; a Hapvida, por um lançamento atípico de pessoal no segundo trimestre.

Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento (Resolução CVM 20/2021). Quer acompanhar outros levantamentos como este? Veja mais estudos da Economatica.

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